“Nós não seremos silenciados!”

Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil, faz um relato sobre a ameaça de bomba durante a Missão contra o fracking na Argentina.


Numa ação contra o fraturamento hidráulico, chamado fracking, na Argentina, fui convidada pelo Senador argentino Fernando Pino Solanas para participar de um seminário no Senado Federal sobre Alternativas ao Extrativismo. Durante o evento tivemos que deixar o local devido a uma ameaça de bomba.

Nossa estada na capital portenha começou tensa. Organizado pela 350.org Brasil e COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil – a ‘Misión No Fracking Latinoamerica’ levou para a Argentina parlamentares paranaenses para a troca de experiências sobre os impactos do fracking com legisladores, comunidades indígenas Mapuche e agricultores.

Estavam os deputados paranaenses Rasca Rodrigues, José Carlos Schiavinatto, Fernando Scanavaca e Marcio Nunes, juntamente com os vereadores do município Toledo Tita Furlan e Vagner Delabio, e a Senadora uruguaia Carol Aviaga, todos reunidos para discutir os desafios ambientais compartilhados em um evento organizado pelo Senador Solanas, que preside a Comissão de Meio Ambiente do Senado argentino.

Na parte da tarde a polícia evacuou o local do Senado onde estávamos reunidos. A chamada ameaçadora alertou que havia uma bomba na sala. Após a busca, eles foram capazes de determinar que era um alarme falso.

Na Argentina, nossa missão era aprender mais sobre fracking em um país onde isso já está acontecendo, e ver e ouvir seus impactos no povo argentino. Testemunhos partilhados durante a reunião deixam claro que as companhias de petróleo e gás estrangeiras e nacionais, têm utilizado o fracking para extrair gás, que nenhum desses países precisa e nem as empresas têm licenças sociais para isso.

A água foi o tema principal discutido, uma vez que a contaminação, escassez e uso pesado industrial são questões que enfrentam todos os países latino-americanos. O uso intenso de produtos químicos tóxicos e cancerígenos está envenenando aldeias inteiras e comunidades tradicionais.

Com o andar da reunião, ficou claro que junto com os projetos dos combustíveis fósseis e mineração colossais vem uma falsa democracia, onde os direitos humanos e indígenas são violados e os movimentos de oposição, e até mesmo legisladores, são ignorados e negado seu direito à informação ou protesto.

Apesar da tensão e tentativa de intimidação, ainda naquela noite, foi realizado um evento com pensadores latino-americanos e de grandes nomes como Alberto Acosta, presidente do processo Constituinte em que o Equador declarou na sua constituição a natureza como sujeito de direitos legais, além de pessoas do movimento anti-fracking latino-americano, e outros como Enrique Viale, Juan Pablo Olsson e Juliano Bueno de Araújo, este do Brasil. Os estudiosos Eduardo Gudynas e Maristela Svampa também merecem destaque.

A sala estava cheia de senadores e deputados argentinos (23 deputados e 5 senadores) interessados em saber mais sobre as alternativas para o extrativismo, e como juntos, os latino-americanos podem construir uma nova agenda. Mais uma vez, a falta de democracia foi evidenciada por todos os discursos, cheios de histórias de violações e perseguições.

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Logo antes de meu discurso, o Senado recebeu a ameaça de bomba, e todo mundo foi forçado a evacuar o edifício. Um ponto comum entre todos nós que pensam, criticam e lutam contra as corporações fósseis e de mineração é que não somos facilmente silenciados. A resistência está em nosso DNA.

Por isso esperamos, com calma, nos salões do Senado, enquanto a polícia varreu as salas. A gente não desistiu, e logo que tivemos a luz verde, voltamos e  e continuamos a discutir as mudanças climáticas, e a clara integração entre projetos de corrupção, opressão e desinvestimentos em combustíveis fósseis.

Quando o evento acabou, eu ouvi do pessoal da segurança do Senador Solanas que a intimidação foi devido a nossa presença no país, e que representamos  uma ameaça – um movimento que já atingiu a suspensão das atividades de exploração fracking no Brasil –para o estabelecimento da YPF (a companhia de energia da Argentina), da Petrobras e seus respectivos correspondentes nos governos.

Não muito tempo atrás, apenas uma semana após 350.org Brasil e COESUS pararem um leilão de fracking no Brasil por quase 20 minutos e fazer as nossas vozes serem ouvidas por todos os investidores da indústria do petróleo, nosso escritório foi arrombado. Os discos rígidos, computadores e pen drives foram roubados. Poucos dias depois, duas escutas foram encontradas em nossos escritórios, um deles bem debaixo da minha mesa.

Acredito que isso é o que acontece com ativistas em uma democracia de faz de conta, onde as corporações, o governo e a polícia trabalham para lhes impor a ditadura do silêncio. Mas não vamos ser silenciados, nem vamos diminuir a nossa luta pela justiça climática, a democracia, direitos humanos e um futuro livre dos combustíveis fósseis.

Agora precisamos da sua ajuda. Precisamos comprar de volta o equipamento roubado e fazer melhorias no escritório para torná-lo mais seguro para nós, nossos parceiros, ativistas e voluntários. Por favor, doe agora.

Mais informações sobre a campanha no site www.naofrackingbrasil.com.br
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Nicole Figueiredo de Oliveira é diretora da 350.org Brasil e América Latina e coordenadora nacional da campanha Não Fracking Brasil.

 

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