Mobilização contra o fracking reúne estudantes e indígenas em defesa da água e da terra

 

 

Protesto ocorreu em frente à sede da Universidade do Norte do Paraná em Cornélio Procópio (PR) onde seria realizado um curso sobre ‘os benefícios e vantagens da indústria dos combustíveis fósseis’

 

Estudantes universitários, lideranças indígenas e de movimentos sociais se reuniram na manhã do último sábado (22) em frente à sede da Universidade do Norte do Paraná (UENP-Centro) para protestar contra a realização de um curso que pretendia enaltecer ‘as vantagens e benefícios da indústria dos combustíveis fósseis’. Segundo os organizadores do curso, seria dada ênfase à geração de emprego e royalties para as cidades.

 

Mobilização mostrou que a população não irá permitir exploração de gás de xisto ou outro fóssil.

 

 

No folder do curso, chamou a atenção da população as fotos dos caminhões vibradores, que percorreram a região ano passado provocando terremotos induzidos para fazer o levantamento geológico no subsolo e que causou danos às residências e prejuízos. O objetivo dos testes sísmicos é abrir caminho para a exploração do gás de xisto através do fraturamento hidráulico, tecnologia altamente poluente também conhecida como fracking. Proibida em diversos países, por onde passou a tecnologia deixou um rastro de destruição da biodiversidade, contaminação das reservas de água e aquíferos, a população adoeceu gravemente e não houve o prometido desenvolvimento econômico nem a geração de empregos. Muito pelo contrário, nos Estados Unidos cidades inteiras foram abandonadas pela falta de água, empregos e condições para a produção de alimentos.

 

 

Destruição

Diante disto, integrantes do Movimento Estudantil liderados por Carolina Helena dos Santos, presidente do Centro Acadêmico do Curso de Letras da Universidade do Norte do Paraná, os caciques Igor Camargo da aldeia do município de Abatiá e Everton Lourenço, da aldeia de Santa Amélia, e representantes do Movimento Negro representado pelo advogado Ivaí Lopes Barroso organizaram manifesto diante do local do referido curso.

Movimento une estudantes e indígenas: Amaue Jacinto (à esquerda), Caroline Helena dos Santos, Cacique Everson Lourenço, Cacique Igor Camargo, Nelson Luís Camargo e Lucas Magalhães.

Carolina Helena disse participar com entusiasmo da manifestação: “Uma honra lutar ao lado dos indígenas pela proteção da água e da terra. Todos aqui tememos os avanços do fracking e estamos atentos a cada passo da indústria do fraturamento hidráulico. Sou vegana e faço opções pessoais e coletivas pela preservação do planeta. Penso que hoje o movimento estudantil aderiu ao grito pelo Não Fracking para defender de vez a terra, única casa que temos”.

Para o cacique Igor Camargo, da aldeia de Abatiá, não faz sentido a Universidade deixar que algo proibido, como os caminhões vibradores, seja motivo de curso em suas dependências. “Nós indígenas não permitiremos que o fracking venha ameaçar nossa região. Nossa água, a terra que plantamos será cuidada por nós por gerações”.

Ivaí Lopes Barroso, advogado e presidente da Associação dos Negros Procopenses, lembra quão dolorosa a história das populações impactadas pelo fracking na Argentina, especialmente o povo Mapuche. “Toda vez que ouço Papa Francisco falar sobre terra e água com emoção e preocupação, penso que ele está a pensar em seus irmãos latino-americanos que perderam a vida com o câncer causado pelas emissões de metano e fluidos tóxicos do fraturamento hidráulico. Não permitiremos que as cidades virem desertos por causa da ganância de alguns”, afirmou.

 

Proteção

“As imagens dos caminhões tremedeiros no material abalaram a cidade e trouxe a lembrança dos transtornos causados na região à época de sua passagem. Muitos ainda amargam prejuízos em suas residências”, conta Izabel Cristina Marson, professora e voluntária da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.

Grande parte das cidades do Paraná já está informada sobre os riscos e impactos do fraturamento hidráulico, o fracking, para a água, para as terras e para a saúde das pessoas. “Onde há informação, a mentira não prospera e nós aqui do Norte Pioneiro já temos quase a totalidade das cidades protegidas dessa ameaça e sabemos que nada de bom vem dessa gente”, enfatizou Izabel.

Indígenas estão mobilizados para preservar a água e a terra.

Ela lembrou que a cidade de Cornélio Procópio vem desde o ano passado lutando contra a indústria do fracking e tem uma lei municipal que proíbe definitivamente essa exploração minerária. “Fazemos parte da região que compreende do Rio Tibagi até a fronteira com o estado de São Paulo, uma importante bacia para a biodiversidade, para a agricultura e para o abastecimento das cidades e indústria”. No Paraná, inclusive, está em vigor a Lei 18.947/2016 que suspende por 10 anos a concessão de licenciamento para a exploração do xisto e proíbe a circulação dos caminhões vibradores para a pesquisa.

Izabel argumentou ainda que a região precisa de novos e mais avançados projetos no campo da energia renovável. “Se temos água e vento em abundância, o que faz um curso sobre os horrores dos fósseis em Cornélio Procópio? A Universidade deveria primar pela pesquisa nestas modalidades e ajudar a humanizar a sociedade com o ideário de que o xisto, o mais perverso dos fósseis, deve ficar é debaixo da terra para o bem dos seres humanos, da fauna, flora, e das águas”.

A manifestação deste sábado integrou as frentes de luta da região e unificou o movimento estudantil e o movimento indígena na campanha nacional do fraturamento hidráulico. Nas próximas semanas palestras irão acontecer nas dependências da universidade para que os acadêmicos tomem conhecimento de mais esta ameaça ao meio ambiente e forme consciência para entender, por exemplo, as questões ligadas à venda de blocos pela Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) para a exploração de gás não convencional.

 

 

Por Silvia Calciolari

Fotos: COESUS/350Brasil/lFernanda Calandro

 

 

 

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